É uma descoberta espantosa: a história da traição de Judas segundo o ponto de vista do próprio.
Um manuscrito dos séculos III ou IV encontrado no Egipto contém, entre os papiros descobertos – entretanto restaurados, autenticados e traduzidos –, o Evangelho de Judas, o apóstolo maldito.
O momento-chave do manuscrito pode ser encontrado neste diálogo entre Jesus e Judas: Irás superá-los a todos, promete Jesus. Pois irás sacrificar o corpo que me reveste. Não é, assim, uma traição, mas uma missão de sacrifício. Afasta-te dos outros e contar-te-ei os mistérios do reino. Irás alcançá-los, mas sofrerás muito, diz-lhe ainda Jesus.
A ideia de que Jesus não foi o único a sacrificar-se pela Humanidade – Cristo sacrificou a vida, Judas o nome e a repo...líciação – é sugerida então por um manuscrito dos séculos III ou IV contendo a única cópia conhecida do Evangelho de Judas. O manuscrito foi encontrado no Egipto, depois de ter estado perdido durante 1700 anos, os papiros foram restaurados, autenticados e traduzidos por uma equipa de cientistas e investigadores. O códice foi autenticado através da datação por carbono radioactivo, análises de tinta, imagem multi-espectral, prova contextual e prova paleográfica.
Judas sempre foi intrigante. Qual terá sido o verdadeiro papel do apóstolo que traiu Jesus? A traição terá resultado de uma decisão individual ou Judas foi apenas um peão do grande xadrez divino?
Se Cristo não tivesse sido crucificado para pagar os pecados da Humanidade, esta não teria sido salva e a ressurreição não teria existido. De forma voluntária ou não, Judas deu jeito - mas é possível que a história da sua traição nunca venha a ser revista.
Que Judas Iscariote não terá sido o vilão da história é ideia há muito defendida. Há quem afirme que este manuscrito não é mais do que a cópia de um outro, escrito em 150 d.C por gnósticos.
Os cristãos gnósticos – um grupo de religiosos do século II que rivalizava com a Igreja – defendiam Judas como um homem benéfico, o preferido de Jesus, o apóstolo que teve uma colaboração activa na salvação da Humanidade. Os gnósticos foram denunciados como hereges 180 anos depois do nascimento de Cristo. Esta visão dos gnósticos terá sido escrita em grego 150 anos depois do nascimento de Cristo. Há quem acredite que o manuscrito agora descoberto é apenas uma cópia desse documento.
O manuscrito, redigido em língua copta – do Antigo Egipto –, contém o Evangelho de Judas, um texto intitulado Santiago (também conhecido por Primeiro Apocalipse de Santiago), uma Carta de Pedro a Filipe e um fragmento de um quarto texto designado Livro de Allogenes.
O códice, encadernado em tecido - pensa-se ter sido copiado para copta cerca do ano 300 d.C. –, foi encontrado na década de 1970, no deserto perto de El Minya, no Egipto. Depois circulou entre antiquários, viajou do Egipto para a Europa e daqui para os Estados Unidos. Durante 16 anos, o manuscrito permaneceu num cofre-forte em Long Island, Nova Iorque, até ser adquirido pela antiquária de Zurique, Frieda Nussberger-Tchacos, em 2000.
Quando as suas tentativas de venda do manuscrito se revelaram infrutíferas, Nussberger-Tchacos, alarmada pela rápida deterioração do códice, transferiu-o para a Fundação Mecenas de Arte Antiga em Basileia, na Suiça, em Fevereiro de 2001, para que fosse restaurado e traduzido. O manuscrito, agora conhecido como Códice Tchacos, será devolvido ao Egipto e alojado no Museu Copta do Cairo.
in Bitaites